sábado, 5 de setembro de 2009

Os navios eram chamados de "tumbeiros", de tumba, por causa da alta mortalidade dos escravos africanos

Mais de três séculos


Os navios eram chamados de "tumbeiros", de tumba, por causa da alta mortalidade dos escravos africanos.



No filme “As aventuras de Robinson Crusoé”, de Mozael Silveira para onde Robson Crusoé estava indo?

Ele estava vindo da Bahia e indo pra África. Está no livro publicado em 1719.

“Tendo eu vivido quatro anos no Brasil, negociantes e plantadores disseram que pretendiam aparelhar um barco para ir à Guiné, já que a venda pública de escravos estava proibida, desejavam fazer apenas uma única viagem e descarregar discretamente os negros numa praia e dividi-los entre suas próprias plantações. Em suma: queriam saber se eu aceitaria ir como comissário de bordo para dirigir os negócios”.

O escritor Daniel Defoe estreava Robson Crusoé no tráfico negreiro. Ele tinha concluído que não era senhor de engenho, proprietário de terras, fazendeiro que ganhava dinheiro de verdade. Eram os traficantes de escravos.

Robson Crusoé não era um vilão. Era um homem de negócios. Para a Santa Igreja, os negros africanos não tinham alma. Podiam ser escravizados. A África já tinha mesmo uma longa tradição de escravidão. Um navio negreiro era só mais uma navio cargueiro.

As normas da União Européia sobre o transporte de animais vivos são claras e rigorosas. Os porcos, por exemplo, não podem viajar mais do que 24 horas precisam ter acesso permanente à água. Assim como cavalos, bois, bodes e ovelhas, se a viagem durar mais de 24 horas, os animais têm que ser desembarcados e alimentados. E precisam descansar um dia e uma noite em postos de controle



De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o animal humano precisa beber pelo menos três litros d'água por dia. Ingerir no mínimo cerca de 1,5 kg de comida por dia. Os humanos também consomem o um metro cúbico de ar por hora. São 24 metros cúbicos de ar por dia.

Durante os séculos 16, 17, 18 e 19, navios atulhados de peças humanas cruzavam o Atlântico.

“O que vocês sabem das condições dentro de um navio negreiro?”, pergunta nas ruas Pedro Bial.

“Em quatro meses de viagem, todo mundo junto. Quatro meses sem poder se mexer, quatro meses com a comida da pior qualidade, quando ganhava. Quatro meses com uma água salobra. Sabe qual era o nome dos navios negreiros? Tumbeiros. Vem de tumba, porque de cada dez escravos que entravam nos navios, às vezes quatro ou cinco morriam. Só chegava a metade”, explica o historiador Eduardo Bueno.

O mais famoso quadro sobre o navio negreiro é de um alemão. Ele não pinta uma cena tão tenebrosa.

Ele próprio admitiu que tinha criado uma alegoria e que tinha só avisado as cores e a expressão. Mesmo assim, olha o que ele escreveu sobre o quadro: “os escravos são amontoados contra as paredes do navio e em torno do mastro. Onde quer que haja lugar para uma criatura humana e qualquer que seja a posição que se lhe faça tomar, aproveita-se. As paredes comportam, a meia altura, uma espécie de prateleira de madeira, sobre a qual jaz uma segunda camada de corpos humanos”.

Muitas tribos negras vendiam escravos negros para os portugueses. Quando o tráfico foi proibido, os caras não poderiam, em tese, mais vender. Então o preço dos escravos na África caiu muito. E no Brasil, subiu muito. Eles traziam os escravos para plantar açúcar, para depois pegar ouro nas Minas Gerais. O que valia mais? O cara que mais ganhava dinheiro na roda econômica brasileira, não era o cara que plantava açúcar, não era o cara que tinha uma mina de ouro, não era o cara que tinha uma fazenda de café. Era o traficante de escravos.

No Brasil, a lógica econômica deu uma pirueta e uma peça da engrenagem, o escravo, se tornou mais valiosa que o produto final. Até que no início do século 19, a Grã-Bretanha começou a perseguir os navios negreiros.

Os britânicos, o império da época, a alto proclamada polícia do mundo, como os Estados Unidos hoje, os britânicos não resolveram combater a escravidão somente pelo idealismo de alguns. Havia outros, vários objetivos comerciais na disputa. Até havia humanismo também. Mas alimentado por interesses de mercado. Mercado. Essa palavra, essa idéia, começava a impor a sua supremacia. A revolução industrial não precisava de escravos. Queria consumidores.

A contribuição luso-brasileira para esta história, foi a instituição do comércio de escravos como base econômica para o império. Essa foi a novidade, a inovação.

O Brasil foi o país que recebeu maior número de escravos na história da humanidade: 5 milhões de escravos, pelo menos, foram trazidos para o Brasil. Quatrocentos anos se prolongou o tráfico escravo para o Brasil.

É declarada extinta desde a data desta lei, a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições encontradas. A lei ficou 58 anos no parlamento para ser votada e não era votada por decurso de prazo. Por que chegava na hora de votar, os deputados saíam para não ter coro, para não ter a votação.

Com o passar dos séculos, a travessia foi se sofisticando, ganhando velocidade. No século 19, a viagem durava apenas um mês. E a mortalidade da carga viva, caiu para 5%. Quase todos os documentos relativos às transações comerciais envolvendo seres humanos no Brasil, foram destruídos, queimados, logo depois da assinatura da Princesa Isabel.

Foi um auto de fé abolicionista. E dizem que feito para apagar com o negro passado do Brasil. A gente sabe que não foi nada disso. A questão é que não havia dinheiro para indenizar os proprietários de escravos. Eles eram proprietários de bens materiais e foram confiscados. Havia 700 mil escravos no Brasil. Eles valiam 210 milhões de contos de réis. E o orçamento geral do império era 165 milhões.

Joaquim Nabuco antecipou: a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Isso folha a sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte.

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